Capítulo 1

Inteligência Artificial aplicada à Resposta a Incidentes

Livro de minicursos do XXVI Simpósio Brasileiro de Cibersegurança, o SBSeg 2026, publicado pela Sociedade Brasileira de Computação.

Resumo

Equipes de Resposta a Incidentes convivem com um volume de notificações que há muito ultrapassou a capacidade de triagem manual. Este capítulo examina como a Inteligência Artificial, e em especial os Modelos de Linguagem de Grande Escala, pode apoiar a resposta a incidentes sem deslocar o analista humano.

Combinam-se frameworks consolidados (NIST SP 800-61 Rev. 3, NIST CSF 2.0 e FIRST CSIRT Services Framework), uma revisão da literatura recente organizada por categoria de aplicação e três estudos de caso conduzidos sobre uma base de tickets reais de incidentes, previamente pseudonimizados, cedidos por CSIRTs parceiros: pseudonimização de tickets, classificação automática de incidentes e geração assistida de playbooks. Cada estudo de caso combina a demonstração das ferramentas do grupo proponente com um notebook simples, auto-contido e executável, publicado em repositório aberto.

A mensagem central é que a IA não substitui o processo de resposta a incidentes, mas amplia a capacidade de triagem, análise, documentação e recomendação quando integrada a frameworks consolidados, dados confiáveis, anonimização adequada e validação humana.

Abstract

Incident response teams face a volume of notifications that has long outgrown what manual triage can absorb. This chapter examines how Artificial Intelligence, and Large Language Models in particular, can support incident response without displacing the human analyst.

We combine consolidated frameworks (NIST SP 800-61r3, NIST CSF 2.0, and the FIRST CSIRT Services Framework), a structured review of the recent literature organised by application category, and three hands-on case studies conducted over a base of real, previously pseudonymised incident tickets provided by partner CSIRTs: pseudonymisation of tickets, automated incident classification, and assisted playbook generation. Each case study pairs a demonstration of the proponents' tools with a small, self-contained and executable notebook, published in an open repository.

The chapter's central message is that AI does not replace the incident response process; it enlarges triage, analysis, documentation and recommendation capacity when it is integrated with consolidated frameworks, trustworthy data, adequate anonymisation and human validation.

Quem escreveu

Autores

  • Rodrigo Sanches MianiUniversidade Federal de Uberlândia
  • Sebastião Alves de Jesus FilhoUniversidade Federal de Uberlândia
  • Diego KreutzUniversidade Federal do Pampa
  • Cristhian KapelinskiUniversidade Federal do Pampa
  • Lourenço Alves Pereira JúniorInstituto Tecnológico de Aeronáutica
  • Sidnei BarbieriInstituto Tecnológico de Aeronáutica
  • Murray Evangelista de SouzaInstituto Tecnológico de Aeronáutica
Como o capítulo se organiza

Oito seções, do fundamento normativo à prática executável

Estrutura das oito seções do capítulo
Seção Título Papel
1.1 Introdução Situa a pressão sobre as equipes e o diferencial do minicurso: dados reais anonimizados.
1.2 Conceitos Básicos e Frameworks Nivela o vocabulário: ciclo de vida da resposta, CSIRTs e SOCs, taxonomias, fundamentos de IA e de privacidade.
1.3 Estado da Arte em IA para Resposta a Incidentes Revisão organizada por categoria de aplicação, com inclusão deliberada de trabalhos que reportam limites.
1.4 Ambientes, Ferramentas e Bases de Dados Caracteriza os recursos sobre os quais os estudos de caso operam, de modo que o leitor consiga reproduzir o material.
1.5 Estudo de Caso 1: Anonimização de tickets A porta de entrada do pipeline. Cobertura de proteção e utilidade preservada.
1.6 Estudo de Caso 2: Classificação de Incidentes Estratégias de prompting, modelos comerciais contra modelos locais e o cenário de poucos exemplos.
1.7 Estudo de Caso 3: Geração de Playbooks Do incidente classificado à ação, com ênfase em limites, riscos e validação humana.
1.8 Desafios, Tendências e Conclusões Consolida desafios de dados, de modelos e de governança, e trata da formação e capacitação.
O que fica

As cinco conclusões

A IA não substitui o processo de resposta a incidentes

Ela amplia a capacidade de triagem, análise e recomendação. A evidência empírica sustenta a formulação com precisão: modelos operando de forma autônoma falham em proporções incompatíveis com uso operacional, e os mesmos modelos em uso colaborativo produzem ganho consistente.

A metodologia importa tanto quanto o modelo

Combinar taxonomia estruturada com heurística iterativa de prompting melhorou a consistência da classificação em todas as arquiteturas avaliadas. E um único exemplo rotulado por categoria pode dobrar o F1 de um classificador, resultado que o capítulo reproduz sobre a própria base: a acurácia global passa de 68,4% para 89,7% com um exemplo por categoria e nenhuma chamada adicional de API por rodada. Ambas são intervenções de baixo custo e alto retorno, disponíveis a qualquer equipe.

Privacidade é requisito de projeto, não etapa posterior

A pseudonimização não é um passo burocrático que antecede o trabalho real: é a condição que torna possível operar sobre dados reais. A decisão de projeto que a viabiliza sem destruir a utilidade é a pseudonimização determinística com preservação do tipo da entidade.

A validação humana é fonte de sinal, não apenas salvaguarda

O desenho que distingue propostas maduras é aquele em que a correção do analista realimenta o sistema. É essa realimentação que converte a ferramenta de um produto estático em um ativo institucional que melhora com o uso.

O incidente real é um ativo de dupla função

Uma vez tratado com o cuidado devido, o mesmo material que alimenta a operação alimenta a formação. Fechar esse ciclo, da operação à sala de aula e de volta, é provavelmente a contribuição mais duradoura que a comunidade brasileira de segurança pode extrair deste trabalho.

Para ir adiante

Leituras recomendadas

Uma seleção entre as referências do capítulo, privilegiando revisões sistemáticas, estudos com avaliação empírica sobre dados reais e trabalhos que reportam limites da automação, e não apenas ganhos.

  • 99% false positives: A qualitative study of SOC analysts' perspectives on security alarms Alahmadi, Axon e Martinovic. USENIX Security Symposium, 2022. A referência empírica mais citada sobre fadiga de alertas. Distingue falso positivo de disparo benigno e elicita as cinco propriedades que um alerta precisa ter para ser acionável.
  • Integrating large language models into security incident response Kramer, Rosique, Narotam, Bursztein, Kelley, Thomas e Woodruff. SOUPS, 2025. O estudo mais rigoroso disponível, com 18 analistas e 50 incidentes reais. Mostra que a variável decisiva não é a capacidade do modelo, mas o modo de uso.
  • SoK: Explainable machine learning for computer security applications Nadeem, Vos, Cao, Pajola, Dieck, Baumgartner e Verwer. IEEE EuroS&P, 2023. Conclui que a explicabilidade praticada serve ao pesquisador, e não ao operador que precisa decidir se age.
  • SoK: AI support for analyst situation awareness in security operation centres Karunasingha, Baruwal Chhetri, Nepal, Paris e Kanhere. EuroUSEC, 2025. Identifica a lacuna de colaboração humano-IA: a maior parte das propostas trata o analista como consumidor passivo das saídas do modelo.
  • SoK: Applications and challenges of using recommender systems in cybersecurity incident handling and response Husák e Čermák. ARES, 2022. Formula a recomendação de ações de resposta como problema de recomendação e identifica a assimetria central do domínio: recomendar uma ação inadequada em segurança pode ser pior do que não recomendar nada.
  • Incident Response Recommendations and Considerations for Cybersecurity Risk Management: A CSF 2.0 Community Profile Nelson, Rekhi, Souppaya e Scarfone. NIST Special Publication 800-61r3, 2025. A revisão que reposiciona a resposta a incidentes como recorte da gestão de risco.
  • On-premise SLMs vs. commercial LLMs: Prompt engineering and incident classification in SOCs and CSIRTs Almeida, Pohlmann, Severo, Kreutz, Heinrich e Pereira Júnior, 2025. Quantifica a lacuna entre modelos abertos executados localmente e modelos comerciais, e o que se ganha em troca.
  • Temperature in SLMs: Impact on incident categorization in on-premises environments Pohlmann, Severo, Almeida, Kreutz, Heinrich e Pereira Júnior, 2025. Isola a variável que a intuição sugere ser relevante e mostra que não é: os fatores determinantes são o número de parâmetros e a capacidade de GPU.
  • AnonLFI 2.0: Extensible architecture for PII pseudonymization in CSIRTs with OCR and technical recognizers Kapelinski, Lautert, Machado e Kreutz. WRSeg/ERRC, SBC, 2025. A geração que substituiu o hash público por HMAC-SHA256 com chave secreta.
  • Applying LLMs to the classification of cybersecurity incident tickets in a few-shot scenario Jesus Filho, Santana Santos, Dias Araújo e Sanches Miani. IEEE ICMLA, 2025. Mostra que um único exemplo rotulado eleva o F1 médio de cerca de 46% para mais de 90%, e documenta a divergência de 18,5% entre dois anotadores humanos.
  • Categorização de incidentes de segurança utilizando engenharia de prompts em LLMs Severo, Lautert, Kreutz, Bertholdo, Pohlmann e Quincozes. SBSeg, SBC, 2025. A referência mais direta no contexto brasileiro: aplica engenharia de prompts a quatro LLMs comerciais sobre relatos reais de um CSIRT.
  • CACAO Security Playbooks Version 2.0 OASIS, 2023. O padrão de representação de playbooks em JSON usado como formato de intercâmbio na terceira prática.
Referência

Como citar

O capítulo será publicado no livro de minicursos do SBSeg 2026, pela Sociedade Brasileira de Computação. A versão em PDF disponível neste site é a dos autores, anterior à publicação oficial. Complete o campo de páginas e o identificador digital assim que a publicação estiver disponível.

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  author    = {Miani, Rodrigo Sanches and Jesus Filho, Sebasti{\~a}o Alves de
               and Kreutz, Diego and Kapelinski, Cristhian
               and Pereira J{\'u}nior, Louren{\c{c}}o Alves
               and Barbieri, Sidnei and Souza, Murray Evangelista de},
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  note      = {Material complementar em https://sbseg26-mc1.github.io/}
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Financiamento e parcerias

Agradecimentos

Os trabalhos que sustentam este capítulo contaram com apoio parcial da CAPES, código de financiamento 001; da RNP, por meio do Programa Hackers do Bem e do GT-LFI (Learn From Incidents); da FAPERGS, por meio dos termos de outorga 24/2551-0001368-7 e 24/2551-0000726-1; do CNPq, processos 409743/2025-9 e 408432/2024-1; e da ANATEL, por meio do Termo de Execução Descentralizada com o ITA.

Os autores agradecem aos CSIRTs e Pontos de Presença parceiros pela cessão dos dados que tornaram possíveis os estudos de caso.