SBSeg 2026 Minicurso 1 3 práticas guiadas, 70 minutos

Inteligência Artificial aplicada à Resposta a Incidentes

Da norma à prática executável: como Modelos de Linguagem de Grande Escala podem apoiar equipes de resposta a incidentes sem tirar o analista do processo.

A tese do capítulo: a IA não substitui a resposta a incidentes. Ela amplia a capacidade de triagem, análise, documentação e recomendação quando está integrada a frameworks consolidados, dados confiáveis, anonimização adequada e validação humana.

Como as três práticas se encadeiam

O pipeline em três estágios

  1. Ticket recebido pelo CSIRT
  2. EC1

    Pseudonimização

    ANON-LFI, AnonShield

    NER + regex + HMAC-SHA256

  3. Validação humana
  4. EC2

    Classificação

    AutoClass-LFI, SecLINC

    taxonomia + prompting

  5. Validação humana
  6. EC3

    Playbook

    AutoClass-LFI

    Markdown e Ansible

  7. Resposta documentada e auditável

Os três estudos de caso não são exercícios independentes: formam um pipeline único, no qual a saída de um alimenta o seguinte. A validação humana aparece entre os estágios, e não apenas ao final, porque um erro de classificação produz um playbook silenciosamente errado.

Por que este tema importa

Seis números do capítulo

Dois indicadores explicam a pressão sobre as equipes, dois vêm dos experimentos conduzidos no próprio capítulo, sobre a base real de tickets, e dois lembram onde ficam os limites.

516.556 notificações de incidentes registradas pelo CERT.br em 2024, uma média de 1.411 por dia. CERT.br, 2025
4 milhões é o déficit global estimado de profissionais de segurança. A triagem cresce mais rápido do que a capacidade de formar analistas. ISC2, 2023
89,7% de acurácia sobre 174 tickets reais com um único exemplo rotulado por categoria, contra 68,4% sem exemplo algum. Quase todo o ganho vem de uma só confusão desfeita, entre exploração de vulnerabilidade e tentativa de intrusão. Estudo de caso 2 do capítulo
5.256 substituições de entidade sensível em 182 tickets, cerca de 29 por ticket, para apenas 531 entidades distintas. Cada uma reaparece dez vezes em média, e é essa repetição que a pseudonimização determinística converte em correlação. Estudo de caso 1 do capítulo
42% dos sumários produzidos por modelos operando sozinhos continham imprecisões factuais, e 35% omitiram detalhes críticos. Em uso colaborativo, os mesmos modelos reduzem o esforço do analista. Kramer et al., SOUPS 2025
18,5% é a taxa de divergência entre dois analistas humanos rotulando os mesmos tickets. Esse é o teto prático de qualquer classificador avaliado contra rótulo humano. Jesus Filho et al., ICMLA 2025
O diferencial

Dados reais, anonimizados, com política explícita

A maior parte do material didático sobre IA em segurança opera sobre exemplos sintéticos. Exemplos sintéticos são limpos, sem ambiguidade e sem ruído, e por isso escondem exatamente as dificuldades que caracterizam a tarefa real.

Nada de dado bruto sai da origem

Os tickets reais foram cedidos por CSIRTs parceiros e pseudonimizados localmente, sem depender de qualquer serviço externo. As demonstrações ao vivo operam sobre tickets sintéticos.

Uma base com o desbalanceamento real

São 182 registros, um por incidente distinto, acumulados em cerca de 18 meses. Uma única categoria concentra 64,8% da base e quatro categorias respondem por cerca de 94%, o que torna a acurácia global uma métrica enganosa e obriga a medir por categoria.

Notebooks que cabem na cabeça

Cada prática reimplementa o essencial do mecanismo em poucas dezenas de linhas de Python, sem GPU e sem credenciais de API, de modo que o comportamento observado na ferramenta de produção se torne inspecionável.

O humano no laço é medido, não presumido

O ciclo do GT-LFI incorpora as correções feitas pelos analistas ao conhecimento usado pelo sistema. A validação humana é fonte de sinal de correção, e não apenas uma salvaguarda burocrática.

Público diverso, entradas diferentes

Por onde começar, conforme o seu perfil

O material é o mesmo para todos. O que muda é a ordem em que ele rende mais. Escolha a trilha mais próxima da sua situação.

Estudante de graduação

Primeiro contato com resposta a incidentes.

  1. Entenda o encadeamento: leia o diagrama do pipeline acima, de ponta a ponta.
  2. Comece pela Prática 1: anonimizar é, antes de tudo, um problema de detecção, e isso fica visível em minutos.
  3. Fixe o vocabulário: percorra o grupo de padrões e taxonomias do catálogo.

Docente

Quer aproveitar o material em disciplina ou oficina.

  1. Use os notebooks como estão: são auto-contidos, executam sem GPU e sem credenciais.
  2. Aproveite as perguntas de discussão: cada prática traz as perguntas que conduzem a análise em sala.
  3. Adote os tickets sintéticos: publicados no repositório, dispensam acordo de uso de dados.

Pesquisador

Quer replicar, comparar ou estender os resultados.

  1. Leia as ressalvas metodológicas: números de acurácia só são comparáveis quando se sabe sobre qual conjunto e sob qual taxonomia foram medidos.
  2. Mapeie as lacunas: dados, avaliação, explicabilidade acionável, colaboração humano-IA e verificabilidade de agentes.
  3. Vá às fontes: a lista de leituras recomendadas reúne os SoKs e os estudos empíricos centrais.

Profissional de CSIRT ou SOC

Quer avaliar o que dá para levar para a operação.

  1. Decida a política de dados primeiro: pseudonimização não é anonimização, e o dado pseudonimizado continua sendo dado pessoal perante a LGPD.
  2. Meça o custo da privacidade: cerca de 60% de acurácia com modelos abertos locais contra mais de 90% com modelos comerciais.
  3. Monte o ambiente por camadas: visibilidade, depois detecção comportamental, e só então a camada cognitiva.
Antes da sala

Prepare o ambiente

Os notebooks foram escritos com três restrições deliberadas: são auto-contidos, executam sem GPU e sem credenciais de API, e reimplementam em poucas dezenas de linhas o mecanismo essencial de cada ferramenta.

O mínimo necessário

Python 3.10 ou superior, com Jupyter
A versão 3.10 é o mínimo exigido. O repositório traz o requirements.txt e as instruções de ambiente virtual. Um Jupyter local ou o Google Colab, à sua escolha.
Sem GPU
A demonstração de referência do AnonShield executa em um notebook comum com quatro vCPUs e 8 GB de RAM. A aceleração de mais de 535 vezes sobre a geração anterior é arquitetural, medida em execução só por CPU.
Credencial opcional
Só a Prática 2 na versão online chama uma API, e ela tem uma variante offline equivalente. As demais rodam com provedor local ou simulado.
Clone o repositório
Os cinco notebooks, os tickets sintéticos, os prompts de referência e cinco procedimentos operacionais padrão estão no repositório do minicurso.

Sempre há um caminho sem credencial

Cada prática tem uma rota que dispensa rede, chave de API e orçamento, de modo que nenhum cenário de conectividade deixe alguém parado.

  1. Prática 1: Python puro. Se a biblioteca Transformers não estiver disponível, um reconhecedor léxico simplificado assume o papel do NER e a lição sobre cobertura continua observável.
  2. Prática 2: 02-classificacao.ipynb chama o Gemini em tempo real e pede uma chave do Google AI Studio. 02-classificacao_offline.ipynb traz os resultados de uma execução completa embutidos e chega aos mesmos números, sem rede.
  3. Prática 3: provedor selecionado por uma única variável, entre um modelo local via Ollama, uma API compatível com OpenAI e um gerador simulado determinístico. O simulado é baseado em regras e não é um modelo de linguagem: existe para que a mecânica do pipeline seja exercitada sem infraestrutura.

Sobre os dados usados nas práticas

Por segurança operacional dos CSIRTs cedentes e em conformidade com a LGPD, a base real de tickets não é disponibilizada. As demonstrações ao vivo de anonimização usam tickets sintéticos, publicados no repositório. Os resultados agregados sobre a base real são apresentados de forma pré-computada, sempre acompanhados do código que os produziu.